chuvisco
Por mais volta que se dê, está sempre ali, ao alcance do corpo, a incompreensível injustiça trajada de justiça universal.
Por mais justificativas, a verdade folga: punhos a mais, encurtando o sentido das mãos, pensamentos entrando por todos os lados.
Por mais que fiquem os anos gordos de sabedoria e encardidos de viver, ainda largo é o entendimento que não se ajusta nunca, sob a luz imaculável.
Para compreender a morte é preciso vesti-la inteira, dos dois lados ao mesmo tempo.
haiti
então a terra balança. cardumes que a terra balança cimento que a terra balança sufoco que a terra balança sentido que a terra balança cuidado que a terra balança. crianças que a terra balançam entendam que a terra balança. acontece é que a terra balança as pobrezas que a terra balançam as cidades que a terra balançam as formigas que a terra balançam as balanças que a terra balançam. defuntos que a terra balança souberam que a terra balança. rezemos (e a terra balança) à justiça que a terra balança à lembrança que a terra balança à vingança que a terra balança. poeira que a terra balança sacode que a terra balança. chocalhos que a terra balançam terreiros que a terra balançam macumbas que a terra balançam, balancem, balancem, balancem.
estou até a cintura dentro de uma lagoa cristalina. o sol atravessa a água até o fundo castanho-amarelo. vejo peixes querendo se aproximar. eu, querendo que eles se aproximem, nada posso demonstrar. demoro muito nesta onda, é bom imaginar que vai ser lindo se conseguir que venham até mim. levanto os olhos e mais à frente há uma ilhazinha, ligada à margem por uma ponte de toras de madeira e cabos de aço, mas não me interessam. no cardume há um peixe especial que está mais distante, ele não se importa com a minha presença, não está ponderando se vem ou não, é apenas indiferente. aos poucos, a expectativa que me une às expectativas dos outros peixes vai se dissolvendo até perdermos todo o elo telepático. só consigo querer aquele peixe lá longe. o cardume se dispersa e minha mente também. olho para frente para imaginar que a ponte deve ser boa de atravessar, que a ilha deve ser boa de conhecer e num instante sinto um deslizar numa e noutra coxa. um arrepio profundo de susto e satisfação. olho para baixo e ali está, um pouco acima dos joelhos, o meu peixe, tentando se alojar no meio exato das minhas pernas, sem me tocar. abro-as um pouco para que ele tenha o espaço que precisa e cada milímetro de movimento é uma ameaça de fim. muita atenção, muito cuidado, muito tempo de ajustes físicos e emocionais, tenho meu peixe onde quero, ele me tem onde quer. podia ser para sempre. mas agora, muito lentamente, quase como se não acontecesse, vou aproximando as coxas, o peixe imóvel. o quase já é quase o céu. mais um nada e sinto, enfim, as escamas lisas, a textura enigmática do calor-frio, meus poros todos, meu sangue quente, a novidade, a eternidade. para sempre, a eternidade contra o desejo desejando ir ainda além. com a consciência infeliz da impossibilidade de apertá-lo mais, vem a tristeza imensa da condição, do amor que se rebela e cria ansiedade. descubro, então, que não sou capaz de arriscar, que já não o posso perder. e sufocada duma imensa vontade de esmagar, desaguando de paixão, acordo.
era uma vez
- era uma vez você, mas você não respirava. era só uma coisinha, um peixinho, uma minhoca. você estava encolhidinha com os olhinhos fechadinhos e se alimentava do que vinha do além. você tinha um fiozinho, lembra? a conexão era direta. você era a sua religião. e era tão bom. era tããão bom, não era? até então, ser era natural. eu era assim também, só uma carninha e estava perfeito.
- um dia mudou tudo. eu já desconfiava que isso ia acontecer, mas não sabia pensar o que era "isso". então foi assim, de repente, tudo muito rápido, e alguma coisa... que coisa era aquela, meu deus?! puxou minha primeira respiração de uma vez só. foi como um soco, só que de ar.
- seu corpinho também estava anestesiado de tão sensível, formigando, latejando. a sensação era incrível, mas tudo era tão novo que feria, né? tadinha... eu chorei também nesse dia, mas não sabia porquê. não tínhamos arestas ainda. éramos redondinhos, aconchegáveis, escorregadios. só depois é que crescem as pontas.
- eu experimentei oxigênio pela primeira vez e de novo e de novo e de novo. meu pulmão inflou e no mesmo instante o corpo inteiro sentiu. até doeu, juro. foi muito forte. achei que eu ia morrer, mas aí eu vivi. bebi o ar uma, duas, três vezes e pra sempre. a minha mãe estava lá, tão novinha. muito mais nova que eu, agora. estava tão linda, ali, sozinha. olha lá ela, que gracinha... concentrada... com as veias verdes das mãos estufadas, os olhos fechados, depois abertos, ora pro céu, ora pra dentro. que vontade de estar lá hoje, com ela, nascendo.
- então, você não era só isso o que é agora. você era também aquele cordão enorme. um braço que ligava a sua barriga ao mundo em volta e como não havia um limite, não havia um corte, era também todo aquele universo, do qual não se conhecia o fim. você era um gigante. a maior coisa que existia no mundo e o mundo podia muito bem ser só você mesma, porque você não sabia de nada e nem te interessava saber.
- aí o infinito acabou. parte de você jorrou e parte de você saiu com dificuldade, por um buraco que surgiu ali na hora, ficando um pedaço enorme seu pra trás, que foi amputado, mas não doeu. foi então que descobriu até onde ia seu universo, porque isso só dá para a gente saber pelo lado de fora. mas como ainda não sentia apego, nem ligou.
- foi mesmo, senti-me seca e fiquei muito diferente do ambiente. antes disso, eu era quase a mesma coisa por dentro e por fora. os olhos quase cegaram, mas finalmente viram qualquer coisa. ganhei a tensão, o tempo, percebi as dimensões e fiquei pequenininha, minúscula, apertada na pele fininha, mas estava confortável naquele tamanho. a gravidade foi que me fez confusão e já não coube aprender mais nada: embora estivesse menor, senti-me muito mais pesada.
pra quê esse nó apertado desse jeito? quem amarrou isso assim? que coisa! e agora, o que vou fazer? só o que posso é olhar daqui de cima, atônita, pra firmeza indesejada desse nó que, por ser no peito, fica ruim qualquer posição pra tentar algo mais minucioso. se chegassem lá os dentes, certo que conseguia, nem que fosse, arrancar um pedaço, mas não. por mais força que faça é inútil, como tentar morder o cotovelo.
proposta
casa comigo que é bom para a tosse. casa na árvore é o bom dessa vida. casa-comida-e-roupalavada. caso se encontre espere que eu ache. caso consiga espere que eu arda. casa na árvore amanhã meio-dia. caso sem falta no fim desta tarde. caso preguiça e roupa alargada. casa largada e roupa comida. caso e comida na casa da árvore. caso contigo no fim dessa frase.
ela sabia tudo, mas trocava, de propósito, o sentido das frases antes de falar. mudava também os móveis de lugar, como se fossem de papel, monstros a voar pelo salão até pousarem onde ela queria. eu ali, imóvel, infantil, admirava a magia em silêncio total. ela, ali, movimentando-se esvoaçante e vestindo apenas uma saia, já vestia a razão inteira, para mim. pobre de mim, que só observava, que só podia observar. quem dera eu soubesse dançar aquela dança, quem dera soubesse ser aquele corpo também, quem dera toda aquela substância agarrada à minha pouca existência, eu desejava, mas não sofria, pelo contrário. aquele não era, antes, um gigantesco sim a chicotear-me o couro e mesmo se eu saísse muito machucado, ainda assim, era muito melhor do que não poder estar ali, vidrado de prazer e de presença, tocado, contaminado, transformado em outro, muito maior.
Eu lembro muito das suas mãos. Das suas unhas redondinhas, das articulações grossas, da dureza. Eu lembro das suas mãos fazendo pão de queijo, abrindo uma porta, estendidas para pegar alguma coisa, sacudindo depois de molhadas, carregando um neném. Eu lembro da sua voz com raiva, lembro muito, mas também lembro da sua voz com as crianças e com os velhos da nossa família. Lembro da sua voz com medo, da sua voz de susto, da sua respiração mudando ao receber uma notícia ruim pelo telefone. Lembro de você chorando, os dedos rijos entre os cabelos, os olhos para o céu e a falta das respostas. Lembro das palavras. Eu me lembro muito bem de todas as palavras. Lembro de você dormindo e de você acordando, todos os dias, fazendo os barulhos iguais até ir trabalhar. Eu lembro do som dos seus passos, do seu espirro, do seu silêncio. Eu lembro de você muitas vezes calada, sentada num sofá ou em algum outro lugar sozinha, mas quase dava pra ouvir a gritaria da sua cabeça. Eu lembro de você passando de madrugada. Lembro de sentir a sua presença no escuro, de saber que você estava lá antes dos olhos se acostumarem e eu conseguir ver seu vulto insone na penumbra. Lembro de você falando mamãe para a minha vó. Lembro de você solar, com suas roupas bonitas e coloridas, lembro de um monte delas em você. Lembro dos cabelos molhados penteados para trás, do cheiro bom, do batom, da base, do lápis azul. Lembro de você cantando feliz nas festas, você tontinha, sorridente, com os olhinhos fechados, dançando um belisquete. Lembro dos gritos alegres de ô cumpadi ou qualquer coisa assim. Lembro de você cuidando e brincado com os cachorros do seu jeito. Eu lembro da sua alegria, da sua intimidade, da sua natureza, da sua praticidade, sua barriga, seu riso, suas pernas, seus seios, seus dedos, seus anéis, seu pescoço, seu cabelo, seus olhos, sua testa, sua ira, seus pés e sua paz. Lembro de você no seu diário que eu lia apaixonada. Lembro de imaginar você menina e da vontade que eu tinha de te conhecer assim. Lembro de tentar adivinhar seu mundo antes de mim, sua leveza, seus desejos, sua juventude. Lembro de desejar quase desesperadamente e do fundo do coração, que você fosse muito feliz. Eu lembro dos abraços das chegadas, dos abraços das partidas e dos abraços das comemorações. Lembro dos carinhos curto e intensos de ano novo, dos desejos sinceros e de não precisar falar. É pena a pele não ter tanta lembrança quanto os olhos e os ouvidos. Lembro da falta que eu sentia (e ainda sinto e cada dia mais) de estar mais em você, encostada, grudada, dentro. Lembro de você brincando comigo, preparando uma mamadeira pra mim, trinta mil anos atrás.
estou tentando domar um sentimento velho. há muito que eu tento, mas sempre que estou para lhe montar o dorso, ele me joga no chão com força e eu perco a consciência. da última vez, acordei com ele brincando de colocar a cabeça entre os meus dentes, mas faltou coragem para morder, por conta do chicote que ele tinha na cintura.
eu já vi o amor, eu sei como ele é. quando eu o vejo, eu o reconheço, quando ele está perto, eu o sinto. eu já vi o amor e sei como ele é. ele é alto, muito alto, do tamanho de uma árvore, quase, daquelas cujos troncos transformam-se em outros troncos, cujas moitas de folhas transformam-se, cada uma, numa copa, cujos frutos pendem, abundantes, cuja vida se renova sempre e sempre e sempre e outra vez, para sempre. uma árvore daquelas que a gente olha naqueles parques mais antigos das cidades e elas parecem monstros, se a gente imaginar seu crescimento até ali e depois dali como um fenômeno infinito e acelerado no tempo em relação à percepção humana. se eu bem conheço o amor, bem sei do que é capaz com seu tempo de árvore e suas monstruosas proporções. eu já vi o amor em muitas vidas e sempre soube o que veria. nasci com o amor algumas vezes e noutras cedo, às tantas ou finalmente, eu o revi pelo caminho. o amor nunca pulou uma vida, que eu saiba. para saber, o amor tem cheiro de cabelo limpo ou de baunília e canela, depende. dependendo também pode ter cheiro dentista, mas isso eu só acho. certo é que eu sei o amor. eu já o vi. por isso estou tranquila.
péla e sua a sedução: eu meio que seio, fingindo que mãos. desculpe a pressa dessa urgência, já vai tudo passar, agora. desculpe pela poça que eu babei em vão. eu não quero te tocar com isso e eu nem quero que você se toque. mas va lá, desculpe essa falta de maneira. é passageira, eu juro, vai passar. vai passar agora e tudo, talvez, se você deixar. se arranhar sua porta pra pedir perdão, você toca. toca prá bem longe, por mim, de vez, que eu não consigo perdoar. e desculpa a volta e a revolta, eu já vou cansar. cuidado, presta-me atenção, eu vou atravessar a porta agora, não me deixe. não me deixe trespassar o vão. me toca! me toca prá longe daí. faça feio! sozinha eu não vou conseguir sair. desculpe por essa farsa, essa mentira. desculpe por tantos nós. desculpe o rio forte que eu vou chorar bem aqui no meio, no meio de nós, talvez um mar, para poder te confessar sem medo, que passou do tempo de poder passar.
Comemoração
Dia cinza para passar-se em branco, de alma negra, em vão
Mais uma vez, há fim em vez de festa, nesses dias pouco sãos
Só um fio, muito fino, ainda resta
e este frio de cortar respiração.
na primeira vez em que fui amada, ganhei um par de sorrisos para pendurar nas orelhas. deles, ainda guardo um, quase escondido, mas não em segredo. o outro eu perdi. na primeira vez que o amor veio de fora pousar na minha pele, eu muito pouco conhecia da minha própria pele e do que ela era capaz de sentir. ainda sou muito nova, então não vou dizer que era, só que não tinha, àquela altura, sequer pensado no tempo, tampouco desacreditado nele. na primeira vez, o amor não me pousou na nuca, nem nas axilas, nem na seda sobre os adutores moles, nem nas dobras do joelho. foi logo nos olhos, nas pálpebras, depois dentro. um cisco enorme de mim mesma, hidrofílico, brilhante e não me incomodou não poder pestanejar por alguns segundos, pelo contrário. esteve lá, mudou o que tinha que mudar e migrou, multiplicado e em fiapos minúsculos, para o fundo dos ouvidos, para o nariz e faringe, para o canto esquerdo da boca, um pouco para as sobrancelhas, mas, sobretudo, para as mãos. o primeiro amor que ganhei me transformou, de repente, numa menina linda como eu nunca vira antes, como se nunca me houvesse visto, até então.
no embate de dois gigantes
a luz abana
os braços para chamar
é Tempestade!
cortando ao meio
a branqueza turva dos monstros
do céu, chorando
fincando fundo
as lâminas finas
no lombo dos animais
lavando as trilhas, dispersando
o pó, ventando
o fogo agonizante
nas paixões, entrelaçando
fecundante e feminina
ventre e chifres
Eparrê! dona bonita
couraça forte
Eparrê! guerreira mãe
dessas medicinas
senhora do leme e das velas
cuidadora
Eparrê! mulher búfalo
do ar dançante
senhora da tarde, escudeira
guia das almas
santa verdadeira e bárbara
dos raios cicatrizantes
Eparrê Oyá!
Eparrê Iansã!
eu gosto um pouco de fazer silêncio. às vezes, quando tenho é que falar. depois, quando quero falar, pode ser sozinha, eu não me importo, embora fosse bom me importar. faço-me boa companhia, não esquento com solidão, até gosto, mais até do que devia, mas quando eu quero estar mais que ao meu lado, piro. invento gente, se não tiver jeito. e quem chegar eu aceito, venha com o assunto que vier. quando meu silêncio berra, vem o mundo todo perto, passando do peito para os braços, para o cheiro dos os abraços necessários, embolados de querer. um milhão de instantes num meio segundo, que aproveito bem. tantos anos longe e eu só me aguento, porque tenho dentro um mundo a postos, sempre pronto pra me dar um jeito.
sonhado: perto demais, sempre demais, forte demais, dentro demais. é ultrajante, não dá. não ia dar mesmo pra ser mais que só instantes. na próxima a gente se vê, quem sabe? quem sabe noutra estação, numa encarnação distante? quem é que sabe se eu vou te reconhecer depois da evolução do ser? eu acho mesmo que eu ainda vou querer, mais adiante, mas por enquanto é só assim que eu vou saber dizer.
amor comprimido
tantas águas já passaram
e tenho a nítida impressão
de o trazer ainda, aqui
atravessado na garganta
eu paro ( , ) num instante imediato entre o se e a aceitação. é o único lugar onde a dor não chega. o pensamento não pode conceber este lugar, que é terra fértil apenas para sementessentimentos, apenas para o que não foi ensinado nem moldado, para o que não nasce nem morre. sem pensar vejo tudo, compreendo tudo e nada me falta. num instante, ninguém se foi e eu mesma nunca partirei, cuspindo ressentimento de injustiça. não há amargura nem culpa nem terror nem tristeza. o que sinto aqui não me é possível sentir em outro lugar, não tem nome, nem humanidade. tranquila, vejo outros seres que não me cabem compreender, analisar, temer, julgar. entrego-me para sentir - da forma como sentia antes de conhecer meu primeiro medo - que para lá deste aquário, outras tantas águas há. outros rios, outro mar, outras entranhas. outra imensidão de espera em gestação, concebida em outra forma de inteligente inexatidão, outros infinitos ses em eterno conflito, insondável continuação.
os meus amigos estão espalhados pelo mundo. já estavam, antes de se moverem, assim como eu, que não sou de lugar nenhum. mover-se é ir ao encontro, mesmo que seja mover-se para dentro. quanto mais longe estamos uns dos outros, de alguma forma, mais nos encontramos. eu ando aqui por essas ruas descobrindo os duplos dos meus queridos de sempre, que se esquivam da minha curiosidade, mas se denunciam numa clareza de olhar, numa mão, num tique de boca, numa sílaba. vejo caras conhecidas em completos desconhecidos e sinto desejo de voltar, assim como de alçar voo, ambos impossíveis. embora acredite um dia tornar-se cabível, quando já gozarmos de uma ciência avançadíssima que nos permita fazê-lo, voltar não existe. não. com muita dificuldade, que há de ser vencida, posso meter o que couber na mala, desfazer do que foi feito e ir, mas em frente, apenas em frente, em direção ao que já não me espera, ao que já é muito menos e muito mais do que era, para um mundo tão novo para mim quanto este aqui, quando cheguei. seguir para o instante de onde saí, nunca, ele não está mais lá. ainda serão anos, talvez milênios até que descubram como fazê-lo e então, mesmo se pudesse presenciar o feito, o que chamo hoje de meu lugar, na memória, num momento de saudosismo sem-lugar, seria apenas uma poeira ínfima num universo de esquecimentos, porque nem eu, se perguntada (e não seria), saberia explicar para onde, para que endereço ou o segundo preciso deste destino que já foi, é que eu gostaria de voltar, se até lá me quisessem levar. acordo. é sempre aqui que eu vou estar, aqui e neste momento (não importa quanto tempo passe, quanto mundo gire sob meus pés, quanta gente minha siga em frente ou em quantos pedaços esteja feito meu pensamento) com os amores todos dissolvidos pelo mundo, captando-os pelas bordas dos sonhos, para dentro.
admirando os veios de uma folha qualquer, como os degraus de uma escada qualquer, como os vincos de uma cara qualquer, como os tiques de um corpo qualquer, como o desenho nas ondas das águas de um rio qualquer, como a fila de carros de uma rua qualquer, estou, meio adormecida, de tanta maravilha. acreditar é fácil, compreender é fácil, mas ocupa todo o lugar. o meu lugar sou eu, adormecida, de tanta maravilha, ouvindo ainda o primeiro verbo, o do início, que ainda não terminou de ser dito, prestando muita atenção, tentando prever o final. o meu fim sou eu, despida, desprovida de qualquer medida, adormecida em meio à fantasia, de tanto ver. eu só vou acordar no último dia, somente para me despedir, nem sei de quê.
eu nem estou aí, para que me vejas cantar, se calhar, um pouco melhor (não tenho com o que comparar). eu não estou aí. estou antes e muito antes daqui, já em pensamento, aqui, presa na amplidão da fuga. então, se... então, se... então, se... até que eu vim. meu desejo maior nasceu de tudo o que não queria: uma mão estranha a me tocar nas vísceras, no corte, onde doía mais, onde eu não sabia e nunca soube. nos confins da última fisgada, o isolamento que não fora permitido, o que dirá respeitado. não me bastou sair do país, tenho que sair ainda mais, de dentro de mim, o desespero, às vezes, diz-me. mais uma vez permitiste-te desconsiderar, esquecer, deixar para lá. também o fiz, num instante, que passou. agora estou transbordante e mais que isso - um nome que eu ainda não sei falar - de agonia e de tristeza pela falta da clareza de minha parte, que não permite nunca que entendas o meu medo, de verdade.
Você ainda não veio. Ainda, se ainda virá. No que estará a pensar? Num rio, numa mata inteira, num ser humano cheio de defeitos ou noutra coisa de um seu jeito que eu não posso mais lembrar? Há quanto tempo estará de vir ter comigo? Enquanto ainda aí está, há tempo nenhum e desde sempre, a flutuar em sentimentos límpidos, eu fico aqui a imaginar, a velejar em pensamentos, te encontrando, te perdendo e te buscando adiante e mais. O que eu posso prometer já está feito, é só você vir pegar. Pleno contentamento não te vou poder jurar, mas querendo vir, venha a tempo de eu poder te amamentar.
18:51 e eu estou na cama, paralítico. as horas passam sem dó, sem nada, devendo sua existência a tudo o que se mova, as horas escravas de tudo que não é o tempo.
solitário. no início, são apenas 7 cartas à mostra, cada uma escondendo suas possibilidades ou impasses. no canto superior esquerdo está o destino, está a estrada toda, todos os outros tabuleiros, todos os outros jogos, acontecendo simultaneamente, sem o nosso conhecimento, até que um nosso desencaixe quebra a fluidez da sorte exposta e recorremos a uma peça de vida do mundo que nos aguardava desconhecido, mas não imóvel, embora seja esta a impressão. é fato que alguma atenção e inteligência são importantes, mas o acaso é muito mais forte do que qualquer habilidade. e no fim, num jogo travado, sem saída, sem que as peças, os números, o amor, a riqueza, a guerra ou a natureza nos possam ajudar ou mesmo que esgotemos, por ordem de importância todas as possibilidades, gozando astutamente das oportunidades, acabamos no mesmo, sem a noção do tempo que se foi, sem o gosto de vitória, nada. apenas as horas contam, infinitamente, os acontecimentos realmente relevantes, contam para si, numericamente, sem processar os sentimentos. as horas, todas elas que já foram, rijas, impacientes, as mesmas que virão depois do fim de todos os jogos e além, no fim de todos os tabuleiros, não contarão nunca o seu segredo, jogador, meu o meu, a ninguém. paciência.
uma seta para o céu
furando
cartilagem carne osso
e sangue
que não cessa de fluir
na água
contrariando a direção
da seta
cuja ponta e trava
disfarçadas
de alegria e de riqueza
fartas
vêm do fio que atravessa
o mangue
alagado que este rio
expande
pelas mãos do pescador
retinto
que do céu a seta curva
arranca
à força toda que deus dá
e tange
é quarta-feira no mundo inteiro e vai fazer meia noite daqui a pouco e mais um pouco e mais um pouco e mais um pouco e mais um pouco, já de novo é quarta feira no mundo todo e mais um pouco eu mudo ou morro ou de uma vez eu sumo ou corro ou pouca coisa vai mudar daqui pra lá e meia-volta não vai dar pra dar, nem meia-meia-volta dá e meia noite quase já é uma noite inteira.
quando sair videossonho eu nunca mais vou ao cinema, nem ler livro eu não vou, nem propaganda eu vou ver, desenho ou minissérie em quatro capítulos, o que dirá novelas, não vou não, não vou ler poesia de porcaria nenhuma, nem porcaria de poesia nenhuma, nem música com letra eu vou ouvir, assim, prestando atenção, nem redação eu vou ler, nem de filho, de sobrinho, nem de prova de vestibular, nada, só vou assistir videossonho. de criança, de velhota, de mendigo, de serralheiro, médico, secretária. de traumatizado de guerra, de professora de português, sonho de judeu, de índio, de pomerano, de esquimó, de empregada doméstica, vou ver sonho da minha mãe, da mãe do meu melhor amigo, da mãe da minha mãe e da mãe do pai dele. sonhos da minha cadela, da moça da padaria, da gata que ainda vou ter, de um qualquer australiano, chinês, tailandês, chileno, sonhos da talita, minha prima, sonho de gente doida, gente boa ou infeliz. e nunca mais ilusão, nunca mais ver um verniz, nunca mais uma rima que não seja do acaso.
30 anos depois de ter estado naquela barriga, cá estou eu, não tão sã quanto salva e mesmo assim, nem tão salva, ainda. 30 anos depois, puramente agradecida, desligo o telefone com o dissabor da falta de conexão, do cordão que se perdeu, de falar em outra língua com quem me ouviu falar pela primeira vez. 30 anos e serão precisos mais 30 para eu começar a entender o que foi que aconteceu.
Parabela
é pouco, mas neste enquanto
acontecem nas lembranças
os encontros com minha bela
numa risada eu me lembro
dos passeios divertidos
do carinho, dos encantos
e das tardes tagarelas
pensando nela relembro
de todas as coisas mais lindas
da nossa aquarela das as cores infindas
dos livros, dos contos
de fadas bem vindas às nossas janelas
de memórias tão brilhantes
faz-se a nossa parabela
e este incrível folhetim
não traz no final uma lição
como trazem as parábolas
e por uma simples razão:
nossa história não tem fim
é, parabelas são assim!
histórias únicas, escritas à mão
dia-sim, dia-sim
pois há uns dias-saudade
mas nunca um dia-não
e então, para ela, aqui deixo
o meu mais doce beijo
de saudade dolorido
e de amor recolorido
com um abração de tramela
e meu pedido emburrado
de desculpas e envergonhado
pela demora demorada
do cumprimento bem cumprido
da promessa prometida
(bem lá longe da capela)
da amizade consumada
vivida e aproveitada
e rida e brincada e repetida
... pela distância adiada
reprometo e deixo, aqui, dito
me ajeito, encho o peito e grito:
"DIA DESSES EU VOLTO, QUERIDA! "
um dia desses aí
(nem um a mais, nem a menos)
será um dia TODO só meu e dela
em que vamos atar num laço,
num aperto de fivela
e matar com aquele abraço
a nossa saudade velha
e botar em dia as nossas
aventuras paralelas
vai ser o fim do "quem sabe,
se deus quiser, vamo vê"
o papo de gente enrolada
lenga-lenga de novela
podem mesmo acreditar
que isso nem vai demorar
mais que umas rimas singelas
e no dia tal de uma tal semana
será enfim que essa menina Mana
reencontrará sua menina Bela
no entanto, neste enquanto
continua a parabela...
tempo são
linhas distintas num mesmo retrós
que cosem um caso no outro
e às vezes parece tão pouco
às vezes parece veloz
às vezes parece demais
e faz-se um novelo com todos
carretéis desenrolados
para um futuro e aguardado
lençol bordado de flores
minhocas e seus humores
raízes de um céu negado
e muitas bocas animais
destrincham os fios após
tecer-se um carneiro inteirinho
do focinho para trás
e já bem feito o rabinho
da incontrolável bobina
sai o bichinho tão tonto
que à perfeição arremata
todos os nós num só ponto
Sete lírios brancos no mar, sete ondas e uma mais ao longe que ainda não chegou, mas chegará a horas. Sete lírios brancos em honra da pureza. Sete delírios puros, sete delírios sinceros, sete vidas. Um vulto agachado na beira da lagoa, um anjo, um peixe, uma isca, um anzol. Verde e castanho. Lodo. Mil canções de natal, mil canções de viver e morrer. Mil aprendizados. Todas as dúvidas e mais uma, ainda. Uma garrafa de cachaça, um esquema, uma pedra, um destino igual. "Não tenha sido, talvez, sábio". Eu não sei, ninguém sabe, ninguém vai saber. Sete rodas, sete girassóis, sete caminhos novos para percorrer.
As palavras não saem porque também não entram. Não se pode falar da morte em que não se acredita. Tem uma verdade doida lá fora tentando entrar e eu tenho medo, embora saiba que ela não me fará mal. As palavras são desnecessárias e nenhuma explicação é possível. Basta olhar e está lá: "é a vida", mas sem estas letras todas juntas. A separar, a não crer no que os olhos vêem, a não ouvir, a calar, a morte sempre ensina, pacientemente. É impossível enterrar a gentileza. Também o menino não será nunca possível enterrar, nem mais é do menino o corpo que desce, nem a barba bonita, nem as veias altas, nem o semblante sereno - quase um sorriso - nada disso. Num ato gentil, este corpo todo, com todas as colheitas e marcas deixadas pelas escolhas feitas, fora dado, sem apego, de volta ao corpo do universo. Silêncio. Está acontecendo. A última aventura do menino gentil deve ser saboreada. A dor sabe a sal a mais e a lembrança é doce e suculenta, mas às vezes é demais e faz engasgar. Devagar. As palavras devem ser poucas e não repetidas, para não perderem o sentido. Tudo deve estar em seu exato lugar. O menino e a gentileza estarão, sempre e ainda, a aguardar. Reinando como a frase que não nos cabe falar nem ouvir: "é a vida". A vida está. Há que saber ver, sem ver. Silêncio, para que haja encontro. O menino sempre fica. Silêncio, para compreender.
Você não me conhece. Eu sou um cachorro por dentro. Eu sou muito mais que isso, muito mais que o que pode ver. Em minha alma mora um bicho que não reconhece as palavras e nunca teve um nome. Você não sabe quem eu sou ou onde eu já estive. Sete vezes mais velho que eu, sete vezes mais faminto, sete vezes mais desperto este cão minha alma toda habita. Você não pode compreender os lugares onde minha alma passeia. Sem recompensa que o recompense e sem castigo que o castigue o cão desconhece o poder esmagador do se. Você não sabe. Não há condição que o condicione. Você nunca me viu além da superfície que eu mesma nunca enxerguei. Ele não se lastima e não uiva à espera. Não é macho e nem fêmea. Você não compreende. O cão dentro de mim é um animal inteiro.
cordas. cordas muito mais grossas do que compridas. postes de cimento suportando as cordas de navio que suportam pessoas dependuradas pela dobra dos joelhos, como roupas no varal. o público assiste, há interesse. de repente, um vento forte. um par de joelhos se desdobra e um ator cai no chão, pum, de cabeça. há sangue. vem uma criança. uma menina de um seis anos arrasta o corpo descomposto até um pequeno tanque de brinquedo. dali ela tira uma água preta com que começa a tingir a cabeça do homem. tira-lhe, então, a roupa toda, para não sujar, dobra e guarda num armário ao fundo do palco. a menina volta e continua a tingir o homem nu, até tingi-lo todo. o público espera. enquanto isso, quase imperceptivelmente, os dependurados vão escorregando e uma a um, caem, pum... pum... pum, de cabeça no chão. a menina simplesmente não os nota e do bolso menor da mochilinha que traz às costas, tira um vidro de purpurina dourada finíssima e põe-se a decorar o homem, cuidadosamente: os dedões redondos dos pés, os dedões redondos das mãos e a ponta fina do nariz. neste momento, ao fundo, a cortina une-se ao armário, formando uma vela forte. vem um tufão e leva, num instante, o armário para onde não mais se o vê, ao mesmo tempo em que varre os caídos, forçando-os a mudar de posição. ouve-se um grito contínuo e desproporcional, como um sonho. não se sabe se ele vem da boca fechada da menina ou lá detrás, das coxias. o público perde a paciência e desiste. a criança percebe-se observada e cora.
A morte me vem com um monte de lembranças felizes, isso é estranho. De repente, acho inapropriado sentir tristeza, um pouco ousadia, até. Depois penso que o certo é assim mesmo e pronto, a tristeza finca e mais que finca, retalha. Mas tem hora que eu me surpreendo numa felicidade de morte, com vontade de achar tudo bonito, de aplaudir e elogiar a vida assim, por ter sido vida, até o final.
Ô meu filho, chora não...
chora não que a dor não passa
nem hoje nem quando casa
o mundo é assim mesmo, coração
chora não, filhim, chora não
se cê chorar a mãe chora
co'essa tristeza de choro
e a choradeira em coro
embora até seja bonita
só deixa a mãe mais aflita
vem cá, meu anjim, no meu colo
afunda os olhim no meu peito
inunda, que se tivesse jeito
sua mãezinha já tinha
destransformado essa vida
Vem cá, filhim, lê um livro
cata lenha, acende foguim
ouve disco, canta música
bebe água da bica, refresca
brinca com cachorrim, faz festa
faz amor, faz carinho, se liberta
E presta atenção pra poder
ver inda ao longe o trem
que já tá logo ali na curva
limpa essa vista turva
enxuga os olhinhos, meu bem
vê que além da madrugada
o seu dia não tarda
e já vem
Até agora já aprendi que estou aqui para morrer um dia e até lá ver morrer todo dia o que já cumpre a sua hora. Até agora aprendi que ainda estou aqui e até agora. Se depois do depois aprenderei o contrário, eu não sei ainda. Mas já aprendi que tenho formato de estrela, como a maioria dos vivos e que tenho, assim, dedos ou cabelos nas pontas (as mãos acariciando outros cabelos, os pés se fundindo com o barro comum, os cabelos se embaraçando noutros tantos dedos, como todo mundo). Até agora suspiro. Então, sou toda eu uma corrente e parte de uma maior, infinita, e minha barriga está presa por um cordão invisível à barriga da eva primeira e ao ventre último, da última ave deste universo. Aprendi que preciso aprender ainda a ser Maria, a parir um Jesus, para ter a poderosa experiência de cantar sobre um berço. Que nem sempre que falei fui inspirada pelo divino espírito santo, mas que espero pelo perdão e socorro da santíssima providência com todo o fervor, sinceramente. Que meu vértice ancestral rememora, incha e pulsa faminto, enquanto minha boca pouco articulada semi-goza, insatisfeita. Que as palavras não têm o paladar que aparentam quando em minha língua mole e o silêncio não basta, mas tem que bastar, porque eu não sôo bem em voz alta. E que respiro mesmo assim, embora ainda não o saiba fazer à perfeição.
Eu faço uma reverência. São tantas mãos que já não sei quais são as minhas. Não consigo precisar se o que toco é mesmo aquilo que vejo. A minha avó me contou da lembrança doce da avó dela e junto dessa lembrança veio um nome que eu nunca tinha ouvido antes. Ana. A avó da da minha avó era Ana e eu nunca soube que tinha ela para saber. Senti que foi uma descoberta tão tardia que chegou a me apavorar. As pessoas evaporam. A verdade é feita do nada no estado mais puro que palavra nenhuma pode alcançar. O verbo inicial era imperativo: Vá!
"O Senhor está aqui (ele está aqui) tão certo quanto o ar que eu respiro. (Aleluia) Tão certo quanto o amanhã que se levanta(aaaa). Tão certo quanto eu te falo e tu podes me ouvir."
Minha avó cantava assim. Ninguém precisa duvidar ou acreditar em mais nada além disso. Se a verdade não for essa, e daí? Porque ela também se dissolve e vira a pura mentira, não é?. E a mentira pura nada mais é do que nada mesmo, como o não ou o sim absolutos. Mas também, se não for, tanto faz. O verbo ainda ecoa, dissoluto, eterno, vagando a esmo. Ave Ana. Ave Maria Zezé.
tempo
parada escutando o som das coisas sendo ao meu redor e em mim. o colchão sob mim está sendo, solitário, estou sentindo. a estante e o aquário com a água e os tritões ibéricos e a bolota de musgo rodopiante dentro. tudo sendo, cada coisa e ao mesmo tempo. o guarda-roupa com as roupas, o guarda-chuva e a chuva que ainda vai chover, mas agora não. o céu que está mudando, alguma enxurrada, a estátua do baco plantada na praça da república, todo o tempo. só o tempo não está sendo, agora. a rua é. a cidade é. o mar é. tudo segue sendo. o cachorro na esquina, a esquina, a televisão com o tubo e os fios e a poeira, tudo o que não é o tempo, desde sempre e pra sempre, sendo. eu sinto-me ser, agora mesmo, a todo vapor e embora também sinta o tempo denso, pesado, graúdo, me lambendo a pele e os cabelos e os olhos e os órgãos e tudo o que está sendo em mim e fora, ele não está aqui. o tempo só é nada.
Pensar a morte foi o vaso d'água fria que me agitou o corpo. Eu, lá dentro da bacia, peixe semi-morto, já aflito de sufoco, pensei que sobrevivia, sem saber que dentro em pouco estariam fritos e cheios de sal, minha agonia de medo de anzol e todos os outros segredos, bem como bem e mal, água, alga, rochedo, bem como a memória ingrata, bem como meu deslizar.
Só não te amo mais porque sua flor na lapela é de pano e não brota do peito.
Resta a borboleta que traz no cabelo, mas eu já reparei que é de plástico e não pode voar se quiser.
De que adianta essa flor de pano no peito e a borboleta de plástico no cabelo?
Você acha que eu vou acreditar que essa beleza toda vem de dentro?
Eu só vou te amar inteira quando a flor te romper a pele, a roupa e dar de lamber à borboleta que nela escolher pousar.
A bagunça na minha casa foi tanta e por tanto tempo que só agora que comecei a arranjar espaço para as coisas e forma de ajeitá-las foi que percebi ter perdido um sentimento importante. Já tinha dado pela falta há algum tempo, mas julgava que ele pudesse estar sob uma montanha de roupas ou coisa assim e que depois da faxina, acabaria por ressurgir naturalmente de algum lugar óbvio, por onde eu teria passado várias vezes sem o notar, mas ainda não encontrei nada, nenhum sinal dele e nenhum sobressalto.
conjugal
A canga ameaça, em voz alta, partir, mas não tem forças para arrebentar a arcada.
Em vez disso, os bois silenciosos vão se distanciando discretamente, numa lentidão indolor.
O artefato, ignorante, segue sonâmbulo flutuando, sem perceber o fato, a falta, o desamor.
Um jugo, por si só, não pôde nunca conceber, nem rebentar nada.
alguém deu de parir uma antibomba, pronta para implodir, no vácuo, a qualquer momento, partindo do seu surgimento. 30 anos já foram e nada. batatassando, batatassando, batatassando e nada. nada. dá pra acreditar numa ampulheta sem areia dentro, que de tempos em tempos, continua sendo virada para lá e para cá? qualquer acerto é sinal de um repuxo no tapete, que desestabiliza, relembra a natureza inacertiva, mas não faz estourar cabeça no chão. qualquer decisão de tornar o desespero em ação é sinal de uma promessa doida qualquer de recomeço, de tapete voador, adiamento de implosão. batatassando eternamente enquanto sopram meu carvão.
Se eu pudesse passava mais um dia inteiro daqueles. Cabeça apoiada na parede, corpo atravessado na cama, sem sapato pra não sujar o lençol, se houvesse. Um travesseiro sem fronha à mão, que beleza, melhorou, tava mesmo doendo o pescoço. Mais umas duas horas assim, antes de virar de lado, rosto sobre a mão direita, travesseiro sem fronha amparando a nuca e depois mudar de novo, talvez sentar. Se eu pudesse, pedia pra tocar seu hinário todo, desde o primeiro hino, que agora é o último, até o último que eu ainda não conheço e o meu cantava várias vezes, até aprender pra sempre, igualzinho tem que ser. Um dia inteiro, se eu pusesse ter, para lavar-me do ranço dos meus meios dias. Se eu tivesse mais um dia, ouvia as suas músicas todas. E depois mais outras músicas, todas as que você tem achado bonitas. Você sempre tem razão nas músicas que canta. E depois conversa. E depois poemas. E depois um silêncio inteiro, até eu ter que voltar.
(dí)vida
Ter dinheiro para por os pés na terra para andar descalça pelo chão. Ter dinheiro. Para poder ter nascido brasileira graças a deus ter dinheiro. Pra sentir a respiração do filho na pele ter dinheiro para dormir cedo ou tarde ter dinheiro. Para trabalhar na terra para entrar no mar para ouvir música para tocar violão. Ter dinheiro para ter tempo para fazer dinheiro e não fazer nada para ter dinheiro. Papel para ter dinheiro para ter papel. Ter dinheiro para escrever. Para escolher ter dinheiro para ir para escola e para mudar de escola para aprender. Ter dinheiro para respirar. Para mergulhar ter dinheiro para parar. Para sair ter dinheiro para pagar para entrar para plantar para acompanhar para ver crescer. Ter dinheiro para continuar o que começou para o que comecei. Ter dinheiro para sentir frio e calor e suar e sabor e olhar e perceber. Ter dinheiro para não precisar ter. Ter dinheiro para ser. Para ser adulto para ter criança para confiar.Ter dinheiro para ganhar. Ter dinheiro para perder de vista para perder a cabeça para voltar. Ter dinheiro pra recomeçar. Ter dinheiro para oferecer. Ter dinheiro. Para chorar ter dinheiro para ir ao cinema para sentir saudade para matar alguém para copiar. Ter dinheiro para compreender. Dinheiro para deixar totalmente de entender. Ter dinheiro para conversar para confessar para ouvir para calar e ficar calado o dia inteiro. Ter dinheiro. Para não ir ter dinheiro para ficar e só. Ter dinheiro para ficar só para convidar para ir também para demorar para chegar atrasado para desistir. Ter dinheiro para não ter nada. Ter dinheiro para recusar para não dar para reter dinheiro para acumular para ser tudo o que se sonha. Ter dinheiro para fechar os olhos para ter o mínimo para ser o máximo do ser. Ter dinheiro para ter tudo o que já se tem de graça. Ter dinheiro e nunca mais ter de volta a vida toda que o dinheiro gasta.
E - Am - E - Am - Dm - F - C
G7 C/E
Quando mudei pra lá, fui muito pequenina
G7 C
à nova sina, sem sonho, nem ilusão
G7 C/E
mas fui sentindo que já era tão querida
G7 C
que não temia nem aquela escuridão
E A7
Era um palácio encantado tão bonito
E A7
era um castelo aconchegante, uma mansão
Dm C/E
Tudo tão delicadamente preparado
F# G C
era tão fofo, parecia de algodão
G7 C/E
Ouvia o mundo me chamando cá de fora
G7 C
mas o barulho lá de dentro eu entendia
G7 C/E
Era um tum-tum que pouco a pouco compassava
G7 C
com um tum-tum que no meu peito já batia
E Am
E tanta água que fluía e fluía
E Am
E eu nadava e dançava o meu ballet
Dm C
Enquanto isso eu crescia e crescia
F G C
me divertia entre o sono e os pontapés
G7 - C - G7 - C - G7 - C - G7 - C
E Am
Mas meu castelo foi ficando diminuto
E Am
desconfiada fui tentando me aninhar
Dm C
fiquei de lado, virei de ponta-cabeça
F G C
tentei de tudo e não pude acostumar
G7 C
Até que um dia percebi uma estranheza
G7 C
e tão surpresa fui sentindo me apertar
G7 C
escorregando eu encontrei uma saída
G7 C
uma portinha que eu nem tinha visto lá
E Am
Já fui saindo e abrindo meus olhinhos
E Am
e eu nem sabia o que era enxergar
Dm C
Senti o peso, o ar, o som nos meus ouvidos
F G C
muito assustada, eu comecei a chorar
G7 C
E o meu berreiro era tão, mas tão sentido
G7 C/E
"Como meu mundo pôde assim desmoronar?"
G7 C
Quando me vi, estava em braços tão macios
G7 C/E
e em minha boca, uma delícia pra sugar
E Am
Com o fim do choro foi voltando o meu silêncio
E Am
e foi mamando que pude identificar
Dm C
lá no fundinho o tum-tum que eu conhecia
F G C
então sabia aquele era o meu lugar.
G7 - C - G7 - C - G7 - C - G7 - C
o meu amor está além do oceano. o meu amor quer ter um filho. o meu amor luta incessantemente para sobreviver ao frio. o meu amor morre de fome. o meu amor tem uma casa, uma bagunça. o meu amor é escritor, compositor e desenhista. o meu amor é uma lista, um sem-fim de seus amores. o meu amor sonhou comigo, que me lambeu a barriga e tinha gosto de sal. o meu amor e eu falamos mentalmente. meu amor faz-me ritos de cura e me cura, quando estou doente. o meu amor me viu crescer. o meu amor me amou. o meu amor me esqueceu. o meu amor sofreu muito. um dia, quase morreu. o meu amor sabe o significado do meu nome. o meu amor sabe dançar, declamar e interpretar. o meu amor está cheio de ar, tem um tufão no peito. o meu amor deixei pra trás. lá atrás do mar. o meu amor sabe navegar. o meu amor é um peixe.
infelizmente,
quase resolvida a ter
filho mais não
com a cabeça pendendo
para lá, para cá
e seguindo firme
na contramão
dos sentimentos
não querendo falar no se
nunca mais, se não foi
só no foi e no vai
e vai, com certeza
apesar da pressa
lento e certeiro
um suspiro não adianta
nem retarda
tudo o que importa
já não é, em questão de
passou
viajo, no meu passo
muito bem sei
para onde
sem é entender
que serventia isso
tem, além da óbvia
de ser talvez comida
para os peixes, ainda
quiçá virar pássaro
um outro dia.
Agora que estou a meio caminho de voltar para lado nenhum
- depois de concordar que não há nunca volta a dar -
ensaio o recordar dos doces paladares com o carinho e a devoção
de quem enterra um ente querido, que num instante
de vilão se transforma em amante amado e perdido
no emaranhado de ilusões desse mundo de diâmetros
tão ínfimos.
Agora, neste avião sombrio, sob o medo da atração marítima
sobre as águas da separação, permito-me
chorar os goles de vinho mal sorvidos
e os pastéis tão bons não divididos
por conta da infinita e sempre muito bem vinda
falta de companhia
Meu portugal banguela, que nunca fora meu
nem sequer por um instante,
que não me quis adotiva,
que não me cativou e portanto
exime-se de respondabilidades
De ti, meu portugal, distante
quem sabe um dia sentirei sodades
das natas, dos ovos, das bravatas
nervosas da terceira idade
do seu porto velho
das águas cintilantes
Quem sabe um dia me perca
de mim, a tomar um pequeno almoço
em vez de um café da manhã
quem sabe me lembre a seca
de esperar uma alegria vã
num dia frio de chuva
sentindo doer dos ossos
até as juntas da alma
- depois de concordar que não há nunca volta a dar -
ensaio o recordar dos doces paladares com o carinho e a devoção
de quem enterra um ente querido, que num instante
de vilão se transforma em amante amado e perdido
no emaranhado de ilusões desse mundo de diâmetros
tão ínfimos.
Agora, neste avião sombrio, sob o medo da atração marítima
sobre as águas da separação, permito-me
chorar os goles de vinho mal sorvidos
e os pastéis tão bons não divididos
por conta da infinita e sempre muito bem vinda
falta de companhia
Meu portugal banguela, que nunca fora meu
nem sequer por um instante,
que não me quis adotiva,
que não me cativou e portanto
exime-se de respondabilidades
De ti, meu portugal, distante
quem sabe um dia sentirei sodades
das natas, dos ovos, das bravatas
nervosas da terceira idade
do seu porto velho
das águas cintilantes
Quem sabe um dia me perca
de mim, a tomar um pequeno almoço
em vez de um café da manhã
quem sabe me lembre a seca
de esperar uma alegria vã
num dia frio de chuva
sentindo doer dos ossos
até as juntas da alma
eu não faço nada. é terrível admitir, mas é verdade. eu, na totalidade, incluindo as partes que eu nem conheço, não produz nada que vá ficar para o mundo pós-eu. eu sou boa em tudo, mas só até a segunda lição. eu levo jeito, mas não o levo até muito longe, nunca. não consigo, não posso, não quero ou não sei. o que algo em mim chama de medo, também pode ser julgado como covardia, por outro lado, ou por inaptidão, desleixo, doença, parasitismo, conformismo, demência, depressão, preguiça. eu sou uma soma de vários erros de ninguém. e é bom que eu escreva essas coisas tortas, porque uma parte de mim espera chegar aos 70, ainda com tempo para compreender alguma coisa, ainda em tempo de ser alguém melhor, embora outra parte acredite em um suicídio breve, resolvedor e rápido, anestésico. eu não sei de absolutamente nada e ainda assim sei que não presto. meu pensamento não combina com meu sentimento. minha razão não age, minha clarividência se nega a revelar o que quer que seja. eu vejo todos os meus erros e não faço nada. uma parte de mim saca muito desse mundo e se previne do massacre no silêncio, na hipocrisia, no instinto de sobrevivência dos seres menores. metade ou mais de mim está dentro de um buraco apertado, imundo, úmido, desconfortável, mas está em segurança, escondendo vida entre os dedos cerrados do egoísmo mais infantil. eu não sei de nada e ainda assim sei que vou me foder a qualquer momento. não há quem me possa dizer o que fazer, porque eu sei muito bem das pessoas. sei que não posso confiar na compaixão e no amor, porque embora sinta isso em gigantescas escalas em todo meu ser, sou incapaz de o praticar de forma plena e traio-me, constantemente, em nome da conveniência, da fragilidade, do medo. e sendo assim, prevejo que fraqueza alheia também me esmague, apesar do amor, se vir que tal. a minha morte libertaria um universo inteiro, mas eu não morro. a minha libertação deixaria respirar e viver aqueles que mais amo, mas eu me aprisiono cada vez mais. uma parte de mim está muito doente e a outra parte tem o conhecimento de todas as curas, mas eu não posso salvar a mim mesma. apesar de rezar sempre por alguma ajuda divina, metade dessa oração não reza mais por mim, mas por um fim, por não crer em salvação. eu sei que não mereço. os meus poucos pedaços que conheço, penso que conheço bem e eles juntos não fazem o menor sentido, como se fossem um amontoado de peças perdidas de vários puzzles diferentes. eu não formo uma paisagem, um rosto, um objeto, um animal. eu sou incompleta e ao mesmo tempo, um sem-fim coisas a mais, que sobram, sufocam, transbordam, pesam nos tabuleiros até quebrá-los. é uma perna maior, um dedo mais forte, um dos olhos que vê muito melhor no escuro, a pança de buda e a bacia extremamente larga que vai acabar não servindo de berço há ninguém no fim das contas, embora eu queira tanto, meu deus, tanto. não há encaixe em mim que não seja um estupro. eu sou a própria desproporção sonhando paralítica com a harmonia em perfeita ação, com amor e pureza. parte de mim quer me ver apodrecer em solidão, por merecimento, por justiça, enquanto outra parte quer me ver ascender aos céus, em feixes de divina luz, sabedoria, natureza.
Assinar:
Postagens (Atom)