era uma vez


- era uma vez você, mas você não respirava. era só uma coisinha, um peixinho, uma minhoca. você estava encolhidinha com os olhinhos fechadinhos e se alimentava do que vinha do além. você tinha um fiozinho, lembra? a conexão era direta. você era a sua religião. e era tão bom. era tããão bom, não era? até então, ser era natural. eu era assim também, só uma carninha e estava perfeito.

- um dia mudou tudo. eu já desconfiava que isso ia acontecer, mas não sabia pensar o que era "isso". então foi assim, de repente, tudo muito rápido, e alguma coisa... que coisa era aquela, meu deus?! puxou minha primeira respiração de uma vez só. foi como um soco, só que de ar.

- seu corpinho também estava anestesiado de tão sensível, formigando, latejando. a sensação era incrível, mas tudo era tão novo que feria, né? tadinha... eu chorei também nesse dia, mas não sabia porquê. não tínhamos arestas ainda. éramos redondinhos, aconchegáveis, escorregadios. só depois é que crescem as pontas.

- eu experimentei oxigênio pela primeira vez e de novo e de novo e de novo. meu pulmão inflou e no mesmo instante o corpo inteiro sentiu. até doeu, juro. foi muito forte. achei que eu ia morrer, mas aí eu vivi. bebi o ar uma, duas, três vezes e pra sempre. a minha mãe estava lá, tão novinha. muito mais nova que eu, agora. estava tão linda, ali, sozinha. olha lá ela, que gracinha... concentrada... com as veias verdes das mãos estufadas, os olhos fechados, depois abertos, ora pro céu, ora pra dentro. que vontade de estar lá hoje, com ela, nascendo.

- então, você não era só isso o que é agora. você era também aquele cordão enorme. um braço que ligava a sua barriga ao mundo em volta e como não havia um limite, não havia um corte, era também todo aquele universo, do qual não se conhecia o fim. você era um gigante. a maior coisa que existia no mundo e o mundo podia muito bem ser só você mesma, porque você não sabia de nada e nem te interessava saber.

- aí o infinito acabou. parte de você jorrou e parte de você saiu com dificuldade, por um buraco que surgiu ali na hora, ficando um pedaço enorme seu pra trás, que foi amputado, mas não doeu. foi então que descobriu até onde ia seu universo, porque isso só dá para a gente saber pelo lado de fora. mas como ainda não sentia apego, nem ligou.

- foi mesmo, senti-me seca e fiquei muito diferente do ambiente. antes disso, eu era quase a mesma coisa por dentro e por fora. os olhos quase cegaram, mas finalmente viram qualquer coisa. ganhei a tensão, o tempo, percebi as dimensões e fiquei pequenininha, minúscula, apertada na pele fininha, mas estava confortável naquele tamanho. a gravidade foi que me fez confusão e já não coube aprender mais nada: embora estivesse menor, senti-me muito mais pesada. 

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