Agora que estou a meio caminho de voltar para lado nenhum
- depois de concordar que não há nunca volta a dar -
ensaio o  recordar dos doces paladares com o carinho e a devoção
de quem enterra um ente querido, que num instante
de vilão se transforma  em amante amado e perdido
no emaranhado de ilusões desse mundo de diâmetros
tão ínfimos.


Agora, neste avião sombrio, sob o medo da atração marítima
sobre as águas da separação, permito-me
chorar os goles de vinho mal sorvidos
e os pastéis tão bons não divididos
por conta da infinita e sempre muito bem vinda
falta de companhia


Meu portugal banguela, que nunca fora meu
nem sequer por um instante,
que não me quis adotiva,
que não me cativou e portanto
exime-se de respondabilidades


De ti, meu portugal, distante
quem sabe um dia sentirei sodades
das natas, dos ovos, das bravatas
nervosas da terceira idade
do seu porto velho
das águas cintilantes


Quem sabe um dia me perca
de mim, a tomar um pequeno almoço
em vez de um café da manhã
quem sabe me lembre a seca
de esperar uma alegria vã
num dia frio de chuva
sentindo doer dos ossos
até as juntas da alma





eu não faço nada. é terrível admitir, mas é verdade. eu, na totalidade, incluindo as partes que eu nem conheço, não produz nada que vá ficar para o mundo pós-eu. eu sou boa em tudo, mas só até a segunda lição. eu levo jeito, mas não o levo até muito longe, nunca. não consigo, não posso, não quero ou não sei. o que algo em mim chama de medo, também pode ser julgado como covardia, por outro lado, ou por inaptidão, desleixo, doença, parasitismo, conformismo, demência, depressão, preguiça. eu sou uma soma de vários erros de ninguém. e é bom que eu escreva essas coisas tortas, porque uma parte de mim espera chegar aos 70, ainda com tempo para compreender alguma coisa, ainda em tempo de ser alguém melhor, embora outra parte acredite em um suicídio breve, resolvedor e rápido, anestésico. eu não sei de absolutamente nada e ainda assim sei que não presto. meu pensamento não combina com meu sentimento. minha razão não age, minha clarividência se nega a revelar o que quer que seja. eu vejo todos os meus erros e não faço nada. uma parte de mim saca muito desse mundo e se previne do massacre no silêncio, na hipocrisia, no instinto de sobrevivência dos seres menores. metade ou mais de mim está dentro de um buraco apertado, imundo, úmido, desconfortável, mas está em segurança, escondendo vida entre os dedos cerrados do egoísmo mais infantil. eu não sei de nada e ainda assim sei que vou me foder a qualquer momento. não há quem me possa dizer o que fazer, porque eu sei muito bem das pessoas. sei que não posso confiar na compaixão e no amor, porque embora sinta isso em gigantescas escalas em todo meu ser, sou incapaz de o praticar de forma plena e traio-me, constantemente, em nome da conveniência, da fragilidade, do medo. e sendo assim, prevejo que fraqueza alheia também me esmague, apesar do amor, se vir que tal. a minha morte libertaria um universo inteiro, mas eu não morro. a minha libertação deixaria respirar e viver aqueles que mais amo, mas eu me aprisiono cada vez mais. uma parte de mim está muito doente e a outra parte tem o conhecimento de todas as curas, mas eu não posso salvar a mim mesma. apesar de rezar sempre por alguma ajuda divina, metade dessa oração não reza mais por mim, mas por um fim, por não crer em salvação. eu sei que não mereço. os meus poucos pedaços que conheço, penso que conheço bem  e eles juntos não fazem o menor sentido, como se fossem um amontoado de peças perdidas de vários puzzles diferentes. eu não formo uma paisagem, um rosto, um objeto, um animal. eu sou incompleta e ao mesmo tempo, um sem-fim coisas a mais, que sobram, sufocam, transbordam, pesam nos tabuleiros até quebrá-los. é uma perna maior, um dedo mais forte, um dos olhos que vê muito melhor no escuro, a pança de buda e a bacia extremamente larga que vai acabar não servindo de berço há ninguém no fim das contas, embora eu queira tanto, meu deus, tanto. não há encaixe em mim que não seja um estupro. eu sou a própria desproporção sonhando paralítica com a harmonia em perfeita ação, com amor e pureza. parte de mim quer me ver apodrecer em solidão, por merecimento, por justiça, enquanto outra parte quer me ver ascender aos céus, em feixes de divina luz, sabedoria, natureza.