os meus amigos estão espalhados pelo mundo. já estavam, antes de se moverem, assim como eu, que não sou de lugar nenhum. mover-se é ir ao encontro, mesmo que seja mover-se para dentro. quanto mais longe estamos uns dos outros, de alguma forma, mais nos encontramos. eu ando aqui por essas ruas descobrindo os duplos dos meus queridos de sempre, que se esquivam da minha curiosidade, mas se denunciam numa clareza de olhar, numa mão, num tique de boca, numa sílaba. vejo caras conhecidas em completos desconhecidos e sinto desejo de voltar, assim como de alçar voo, ambos impossíveis. embora acredite um dia tornar-se cabível, quando já gozarmos de uma ciência avançadíssima que nos permita fazê-lo, voltar não existe. não. com muita dificuldade, que há de ser vencida, posso meter o que couber na mala, desfazer do que foi feito e ir, mas em frente, apenas em frente, em direção ao que já não me espera, ao que já é muito menos e muito mais do que era, para um mundo tão novo para mim quanto este aqui, quando cheguei. seguir para o instante de onde saí, nunca, ele não está mais lá. ainda serão anos, talvez milênios até que descubram como fazê-lo e então, mesmo se pudesse presenciar o feito, o que chamo hoje de meu lugar, na memória, num momento de saudosismo sem-lugar, seria apenas uma poeira ínfima num universo de esquecimentos, porque nem eu, se perguntada (e não seria), saberia explicar para onde, para que endereço ou o segundo preciso deste destino que já foi, é que eu gostaria de voltar, se até lá me quisessem levar. acordo. é sempre aqui que eu vou estar, aqui e neste momento (não importa quanto tempo passe, quanto mundo gire sob meus pés, quanta gente minha siga em frente ou em quantos pedaços esteja feito meu pensamento) com os amores todos dissolvidos pelo mundo, captando-os pelas bordas dos sonhos, para dentro.
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