na primeira vez em que fui amada, ganhei um par de sorrisos para pendurar nas orelhas. deles, ainda guardo um, quase escondido, mas não em segredo. o outro eu perdi. na primeira vez que o amor veio de fora pousar na minha pele, eu muito pouco conhecia da minha própria pele e do que ela era capaz de sentir. ainda sou muito nova, então não vou dizer que era, só que não tinha, àquela altura, sequer pensado no tempo, tampouco desacreditado nele. na primeira vez, o amor não me pousou na nuca, nem nas axilas, nem na seda sobre os adutores moles, nem nas dobras do joelho. foi logo nos olhos, nas pálpebras, depois dentro. um cisco enorme de mim mesma, hidrofílico, brilhante e não me incomodou não poder pestanejar por alguns segundos, pelo contrário. esteve lá, mudou o que tinha que mudar e migrou, multiplicado e em fiapos minúsculos, para o fundo dos ouvidos, para o nariz e faringe, para o canto esquerdo da boca, um pouco para as sobrancelhas, mas, sobretudo, para as mãos. o primeiro amor que ganhei me transformou, de repente, numa menina linda como eu nunca vira antes, como se nunca me houvesse visto, até então.
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