estou até a cintura dentro de uma lagoa cristalina. o sol atravessa a água até o fundo castanho-amarelo. vejo peixes querendo se aproximar. eu, querendo que eles se aproximem, nada posso demonstrar. demoro muito nesta onda, é bom imaginar que vai ser lindo se conseguir que venham até mim. levanto os olhos e mais à frente há uma ilhazinha, ligada à margem por uma ponte de toras de madeira e cabos de aço, mas não me interessam. no cardume há um peixe especial que está mais distante, ele não se importa com a minha presença, não está ponderando se vem ou não, é apenas indiferente. aos poucos, a expectativa que me une às expectativas dos outros peixes vai se dissolvendo até perdermos todo o elo telepático. só consigo querer aquele peixe lá longe. o cardume se dispersa e minha mente também. olho para frente para imaginar que a ponte deve ser boa de atravessar, que a ilha deve ser boa de conhecer e num instante sinto um deslizar numa e noutra coxa. um arrepio profundo de susto e satisfação. olho para baixo e ali está, um pouco acima dos joelhos, o meu peixe, tentando se alojar no meio exato das minhas pernas, sem me tocar. abro-as um pouco para que ele tenha o espaço que precisa e cada milímetro de movimento é uma ameaça de fim. muita atenção, muito cuidado, muito tempo de ajustes físicos e emocionais, tenho meu peixe onde quero, ele me tem onde quer. podia ser para sempre. mas agora, muito lentamente, quase como se não acontecesse, vou aproximando as coxas, o peixe imóvel. o quase já é quase o céu. mais um nada e sinto, enfim, as escamas lisas, a textura enigmática do calor-frio, meus poros todos, meu sangue quente, a novidade, a eternidade. para sempre, a eternidade contra o desejo desejando ir ainda além. com a consciência infeliz da impossibilidade de apertá-lo mais, vem a tristeza imensa da condição, do amor que se rebela e cria ansiedade. descubro, então, que não sou capaz de arriscar, que já não o posso perder. e sufocada duma imensa vontade de esmagar, desaguando de paixão, acordo.
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