ela sabia tudo, mas trocava, de propósito, o sentido das frases antes de falar. mudava também os móveis de lugar, como se fossem de papel, monstros a voar pelo salão até pousarem onde ela queria. eu ali, imóvel, infantil, admirava a magia em silêncio total. ela, ali, movimentando-se esvoaçante e vestindo apenas uma saia, já vestia a razão inteira, para mim. pobre de mim, que só observava, que só podia observar. quem dera eu soubesse dançar aquela dança, quem dera soubesse ser aquele corpo também, quem dera toda aquela substância agarrada à minha pouca existência, eu desejava, mas não sofria, pelo contrário. aquele não era, antes, um gigantesco sim a chicotear-me o couro e mesmo se eu saísse muito machucado, ainda assim, era muito melhor do que não poder estar ali, vidrado de prazer e de presença, tocado, contaminado, transformado em outro, muito maior. 

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