Eu lembro muito das suas mãos. Das suas unhas redondinhas, das articulações grossas, da dureza. Eu lembro das suas mãos fazendo pão de queijo, abrindo uma porta, estendidas para pegar alguma coisa, sacudindo depois de molhadas, carregando um neném. Eu lembro da sua voz com raiva, lembro muito, mas também lembro da sua voz com as crianças e com os velhos da nossa família. Lembro da sua voz com medo, da sua voz de susto, da sua respiração mudando ao receber uma notícia ruim pelo telefone. Lembro de você chorando, os dedos rijos entre os cabelos, os olhos para o céu e a falta das respostas. Lembro das palavras. Eu me lembro muito bem de todas as palavras. Lembro de você dormindo e de você acordando, todos os dias, fazendo os barulhos iguais até ir trabalhar. Eu lembro do som dos seus passos, do seu espirro, do seu silêncio. Eu lembro de você muitas vezes calada, sentada num sofá ou em algum outro lugar sozinha, mas quase dava pra ouvir a gritaria da sua cabeça. Eu lembro de você passando de madrugada. Lembro de sentir a sua presença no escuro, de saber que você estava lá antes dos olhos se acostumarem e eu conseguir ver seu vulto insone na penumbra. Lembro de você falando mamãe para a minha vó. Lembro de você solar, com suas roupas bonitas e coloridas, lembro de um monte delas em você. Lembro dos cabelos molhados penteados para trás, do cheiro bom, do batom, da base, do lápis azul. Lembro de você cantando feliz nas festas, você tontinha, sorridente, com os olhinhos fechados, dançando um belisquete. Lembro dos gritos alegres de ô cumpadi ou qualquer coisa assim. Lembro de você cuidando e brincado com os cachorros do seu jeito. Eu lembro da sua alegria, da sua intimidade, da sua natureza, da sua praticidade, sua barriga, seu riso, suas pernas, seus seios, seus dedos, seus anéis, seu pescoço, seu cabelo, seus olhos, sua testa, sua ira, seus pés e sua paz. Lembro de você no seu diário que eu lia apaixonada. Lembro de imaginar você menina e da vontade que eu tinha de te conhecer assim. Lembro de tentar adivinhar seu mundo antes de mim, sua leveza, seus desejos, sua juventude. Lembro de desejar quase desesperadamente e do fundo do coração, que você fosse muito feliz. Eu lembro dos abraços das chegadas, dos abraços das partidas e dos abraços das comemorações. Lembro dos carinhos curto e intensos de ano novo, dos desejos sinceros e de não precisar falar. É pena a pele não ter tanta lembrança quanto os olhos e os ouvidos. Lembro da falta que eu sentia (e ainda sinto e cada dia mais) de estar mais em você, encostada, grudada, dentro. Lembro de você brincando comigo, preparando uma mamadeira pra mim, trinta mil anos atrás.
Eu lembro muito das suas mãos. Das suas unhas redondinhas, das articulações grossas, da dureza. Eu lembro das suas mãos fazendo pão de queijo, abrindo uma porta, estendidas para pegar alguma coisa, sacudindo depois de molhadas, carregando um neném. Eu lembro da sua voz com raiva, lembro muito, mas também lembro da sua voz com as crianças e com os velhos da nossa família. Lembro da sua voz com medo, da sua voz de susto, da sua respiração mudando ao receber uma notícia ruim pelo telefone. Lembro de você chorando, os dedos rijos entre os cabelos, os olhos para o céu e a falta das respostas. Lembro das palavras. Eu me lembro muito bem de todas as palavras. Lembro de você dormindo e de você acordando, todos os dias, fazendo os barulhos iguais até ir trabalhar. Eu lembro do som dos seus passos, do seu espirro, do seu silêncio. Eu lembro de você muitas vezes calada, sentada num sofá ou em algum outro lugar sozinha, mas quase dava pra ouvir a gritaria da sua cabeça. Eu lembro de você passando de madrugada. Lembro de sentir a sua presença no escuro, de saber que você estava lá antes dos olhos se acostumarem e eu conseguir ver seu vulto insone na penumbra. Lembro de você falando mamãe para a minha vó. Lembro de você solar, com suas roupas bonitas e coloridas, lembro de um monte delas em você. Lembro dos cabelos molhados penteados para trás, do cheiro bom, do batom, da base, do lápis azul. Lembro de você cantando feliz nas festas, você tontinha, sorridente, com os olhinhos fechados, dançando um belisquete. Lembro dos gritos alegres de ô cumpadi ou qualquer coisa assim. Lembro de você cuidando e brincado com os cachorros do seu jeito. Eu lembro da sua alegria, da sua intimidade, da sua natureza, da sua praticidade, sua barriga, seu riso, suas pernas, seus seios, seus dedos, seus anéis, seu pescoço, seu cabelo, seus olhos, sua testa, sua ira, seus pés e sua paz. Lembro de você no seu diário que eu lia apaixonada. Lembro de imaginar você menina e da vontade que eu tinha de te conhecer assim. Lembro de tentar adivinhar seu mundo antes de mim, sua leveza, seus desejos, sua juventude. Lembro de desejar quase desesperadamente e do fundo do coração, que você fosse muito feliz. Eu lembro dos abraços das chegadas, dos abraços das partidas e dos abraços das comemorações. Lembro dos carinhos curto e intensos de ano novo, dos desejos sinceros e de não precisar falar. É pena a pele não ter tanta lembrança quanto os olhos e os ouvidos. Lembro da falta que eu sentia (e ainda sinto e cada dia mais) de estar mais em você, encostada, grudada, dentro. Lembro de você brincando comigo, preparando uma mamadeira pra mim, trinta mil anos atrás.
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