Até agora já aprendi que estou aqui para morrer um dia e até lá ver morrer todo dia o que já cumpre a sua hora. Até agora aprendi que ainda estou aqui e até agora. Se depois do depois aprenderei o contrário, eu não sei ainda. Mas já aprendi que tenho formato de estrela, como a maioria dos vivos e que tenho, assim, dedos ou cabelos nas pontas (as mãos acariciando outros cabelos, os pés se fundindo com o barro comum, os cabelos se embaraçando noutros tantos dedos, como todo mundo). Até agora suspiro. Então, sou toda eu uma corrente e parte de uma maior, infinita, e minha barriga está presa por um cordão invisível à barriga da eva primeira e ao ventre último, da última ave deste universo. Aprendi que preciso aprender ainda a ser Maria, a parir um Jesus, para ter a poderosa experiência de cantar sobre um berço. Que nem sempre que falei fui inspirada pelo divino espírito santo, mas que espero pelo perdão e socorro da santíssima providência com todo o fervor, sinceramente. Que meu vértice ancestral rememora, incha e pulsa faminto, enquanto minha boca pouco articulada semi-goza, insatisfeita. Que as palavras não têm o paladar que aparentam quando em minha língua mole e o silêncio não basta, mas tem que bastar, porque eu não sôo bem em voz alta. E que respiro mesmo assim, embora ainda não o saiba fazer à perfeição.
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