cordas. cordas muito mais grossas do que compridas. postes de cimento suportando as cordas de navio que suportam pessoas dependuradas pela dobra dos joelhos, como roupas no varal. o público assiste, há interesse. de repente, um vento forte. um par de joelhos se desdobra e um ator cai no chão, pum, de cabeça. há sangue. vem uma criança. uma menina de um seis anos arrasta o corpo descomposto até um pequeno tanque de brinquedo. dali ela tira uma água preta com que começa a tingir a cabeça do homem. tira-lhe, então, a roupa toda, para não sujar, dobra e guarda num armário ao fundo do palco. a menina volta e continua a tingir o homem nu, até tingi-lo todo. o público espera. enquanto isso, quase imperceptivelmente, os dependurados vão escorregando e uma a um, caem, pum... pum... pum, de cabeça no chão. a menina simplesmente não os nota e do bolso menor da mochilinha que traz às costas, tira um vidro de purpurina dourada finíssima e põe-se a decorar o homem, cuidadosamente: os dedões redondos dos pés, os dedões redondos das mãos e a ponta fina do nariz. neste momento, ao fundo, a cortina une-se ao armário, formando uma vela forte. vem um tufão e leva, num instante, o armário para onde não mais se o vê, ao mesmo tempo em que varre os caídos, forçando-os a mudar de posição. ouve-se um grito contínuo e desproporcional, como um sonho. não se sabe se ele vem da boca fechada da menina ou lá detrás, das coxias. o público perde a paciência e desiste. a criança percebe-se observada e cora.
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