As palavras não saem porque também não entram. Não se pode falar da morte em que não se acredita. Tem uma verdade doida lá fora tentando entrar e eu tenho medo, embora saiba que ela não me fará mal. As palavras são desnecessárias e nenhuma explicação é possível. Basta olhar e está lá: "é a vida", mas sem estas letras todas juntas. A separar, a não crer no que os olhos vêem, a não ouvir, a calar, a morte sempre ensina, pacientemente. É impossível enterrar a gentileza. Também o menino não será nunca possível enterrar, nem mais é do menino o corpo que desce, nem a barba bonita, nem as veias altas, nem o semblante sereno - quase um sorriso - nada disso. Num ato gentil, este corpo todo, com todas as colheitas e marcas deixadas pelas escolhas feitas, fora dado, sem apego, de volta ao corpo do universo. Silêncio. Está acontecendo. A última aventura do menino gentil deve ser saboreada. A dor sabe a sal a mais e a lembrança é doce e suculenta, mas às vezes é demais e faz engasgar. Devagar. As palavras devem ser poucas e não repetidas, para não perderem o sentido. Tudo deve estar em seu exato lugar. O menino e a gentileza estarão, sempre e ainda, a aguardar. Reinando como a frase que não nos cabe falar nem ouvir: "é a vida". A vida está. Há que saber ver, sem ver. Silêncio, para que haja encontro. O menino sempre fica. Silêncio, para compreender.
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