Agora que estou a meio caminho de voltar para lado nenhum
- depois de concordar que não há nunca volta a dar -
ensaio o  recordar dos doces paladares com o carinho e a devoção
de quem enterra um ente querido, que num instante
de vilão se transforma  em amante amado e perdido
no emaranhado de ilusões desse mundo de diâmetros
tão ínfimos.


Agora, neste avião sombrio, sob o medo da atração marítima
sobre as águas da separação, permito-me
chorar os goles de vinho mal sorvidos
e os pastéis tão bons não divididos
por conta da infinita e sempre muito bem vinda
falta de companhia


Meu portugal banguela, que nunca fora meu
nem sequer por um instante,
que não me quis adotiva,
que não me cativou e portanto
exime-se de respondabilidades


De ti, meu portugal, distante
quem sabe um dia sentirei sodades
das natas, dos ovos, das bravatas
nervosas da terceira idade
do seu porto velho
das águas cintilantes


Quem sabe um dia me perca
de mim, a tomar um pequeno almoço
em vez de um café da manhã
quem sabe me lembre a seca
de esperar uma alegria vã
num dia frio de chuva
sentindo doer dos ossos
até as juntas da alma



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